Bolhas, egos e ciclos

July 3, 2011  |  Textos Aleatórios

As vezes nós acabamos dentro de bolhas. São momentos perfeitos em que o tempo não importa. São como máquinas do tempo de momentos que nunca existiram. Se você parar para pensar, bolhas sempre trazem boas lembranças e um arrependimento voraz. Daqueles que você pensa que deveria ter feito diferente para tentar fazer com que essa momento durasse mais tempo. Porque convenhamos que sentimento de invencibilidade, de ser maior que a vida e de ter conseguido dobrar as possibilidades mais atípicas. De ter derrotado a falta de sorte é o combustível que faz com que a bolha mantenha-se inteira e não rompa.

Mas, como toda bolha, o excesso faz com que ela estoure. E pode ser qualquer tipo de bolha. O círculo sempre se fecha, a bolha sempre estoura e a realidade vem mostrar a cara de maneira implacável. É um círculo perfeito e que assim que ele se completa, voltamos a cometer os mesmos erros. Isso acontece com qualquer coisa. Com a bolsa e a crise econômica. Com o valor dos imóveis em SP e no Rio. As práticas vão inflando a bolha, assim que ela estoura, a crise se instaura, a reavaliação do comportamento passado implica num futuro mais conservador e medroso. Até alguém dar o primeiro passo ousado novamente.

O problema de sair de uma bolha é comparar um momento fora da curva com a realidade dura. É dificil voltar a agir de maneira racional. O medo impera e a dúvida do “E se…” completa o cenário e mostra como somos totalmente inaptos para avaliar os erros do passado. Bolhas são feitas para estourarem. É isso que nos faz tomar as estradas certas. Independente da guerra que teremos que lutar. A bolha estourou e nosso objetivo é sair dessa situação. E essa ânsia de mudar o cenário atual e voltar aos velhos tempos da bolha é que nos faz repetir erros e querer reviver aquele momento da bolha pelo menos uma vez mais. Como um viciado que busca só mais uma dose e que nunca vai ser igual à aquela primeira.

Bolhas são encantadoras por princípio. Elas mostram resultados que inflam nosso ego. Elas nos fazem acreditar que somos tudo aquilo. E que aquilo nunca vai acabar. Mas acaba. Sempre acaba. A duração do ciclo varia.

Não consigo escrever sobre isso e não pensar no título de uma das melhores músicas dos Beatles: Happiness Is A Warm Gun.

No filme que ganhou o Oscar de melhor documentário esse ano, “Inside Job”, é visível o efeito que o “ninguém pode me derrubar” pode causar. Acaba sendo bem perto do que vimos em “Wall Street”. Gecko é o clichê.
Em “Playing the Future”, Douglas Rushkoff compara o pregão da Bolsa de Valores ao mar e surfistas. Você tem que entender o ciclo e saber a hora de entrar e sair. Como eu não entendo nada de Bolsa mas do mar eu entendo um pouco, a comparação me fez total sentido na época que li o livro. Mas esses ciclos acontecem em tudo na vida. Pensar que seria diferente em qualquer coisa é inocência.
O difícil é perceber que a bolha não é o cenário perfeito mas sim um cenário utópico, irreal e que tem um ciclo de vida curto e nada sustentável. Sempre imaginamos que uma vez na bolha, conseguiremos provar que a última crise foi um acaso e que dessa vez será diferente. Que o cenário mudou e que estamos mais maduros. Mas no final, não é isso. Nós queremos a bolha. Porque é durante esse período que nos sentimos invencíveis, o mundo exterior é visto de cima e isso alimenta a nossa vontade de testar até onde conseguiremos ir e fugir do momento em que a bolha estoure. Novamente.
No fundo é tentar se mostrar como um daqueles mágicos que furam bolhas de sabão sem as estourar. É a eterna vontade de mostrar que temos total controle até das coisas que não temos como controlar e que somos vítimas das nossas imperfeições e do nosso ego.

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